Uma grave brecha de segurança no sistema de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo deixou o acesso a mais de 58 mil câmeras aberto na internet durante cerca de 11 meses. A vulnerabilidade no Smart Sampa permitiu a visualização indiscriminada de transmissões em tempo real, inclusive em locais de alta sensibilidade, como unidades de saúde, creches, escolas e centros voltados ao acolhimento de dependentes químicos.
Credenciais e dados de agentes ficaram disponíveis
As informações confidenciais estavam armazenadas em um repositório público na web. O conteúdo continha 181 combinações de login e senha pertencentes a usuários credenciados, além de detalhes cadastrais de mais de 6 mil profissionais da segurança pública e tutoriais passo a passo para espelhar a estrutura em computadores e aparelhos celulares.
Com esses dados, foi possível navegar pela plataforma desenvolvida pela Sentinelx, empresa fornecedora da tecnologia, sem a exigência de dupla autenticação. O acesso indevido não se restringiu à observação do tráfego urbano e de pedestres: também abriu caminho para consultas a registros reservados da capital paulista.
Entre os recursos que podiam ser alcançados a partir da chave mestra exposta estavam:
- Identificação completa de cidadãos, com nomes e números de CPF;
- Leitura e monitoramento de placas de veículos;
- Consulta aberta a boletins de ocorrência;
- Rastreamento do deslocamento de viaturas e patrulhas operacionais.
Especialistas em tecnologia apontaram ainda que algumas interfaces do projeto permitiam a inserção de registros externos sem a validação adequada da identidade de quem transmitia os dados. Os arquivos foram retirados do ar após a administração municipal ser notificada.
Riscos para a segurança pública e violações de privacidade
A extensão do vazamento gerou duras críticas de especialistas do setor, que alertam para a gravidade de expor o aparato de vigilância do município a criminosos. O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em segurança pública, Rafael Alcadipani, chamou a atenção para o risco tático do incidente:
“Você pega uma estrutura que o Estado tem para enfrentar o crime, e que possivelmente pode ser utilizada pelo crime para enfrentar o Estado”, afirmou.
O impacto sob o ponto de vista da legislação de proteção de dados também mobilizou entidades da área. Pedro Saliba, pesquisador da Data Privacy Brasil, reforçou a dimensão do ocorrido:
“É uma falha gravíssima em termos de privacidade e vigilância”, disse.
Segundo Saliba, projetos desse porte têm o dever de respeitar diretrizes fundamentais da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), assegurando transparência, segurança técnica, finalidade estrita e controle rigoroso no tratamento das informações.
Reconhecimento facial opera sem auditoria externa
Paralelamente à brecha no monitoramento, a gestão do reconhecimento facial do Smart Sampa levanta dúvidas sobre governança. A própria Prefeitura de São Paulo informou que não detém acesso ao código-fonte, aos modelos de inteligência artificial nem aos parâmetros de treinamento dos algoritmos, além de não submeter a solução a auditorias externas e independentes.
A confiabilidade dos alertas automatizados tem gerado detenções equivocadas na cidade. Entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram interceptadas, encaminhadas a distritos policiais e posteriormente liberadas após checagem. Desse grupo, 75 detenções decorreram de falhas e inconsistências na identificação facial, 181 ocorreram devido a mandados de prisão desatualizados no banco de dados e 12 foram motivadas por divergências cadastrais.
Posicionamento da administração municipal
Em manifestação oficial, a Prefeitura de São Paulo rejeitou a definição do caso como um problema estrutural da plataforma e atribuiu a publicação das informações a uma ação ilícita de um servidor público. O funcionário apontado foi afastado das atividades e passou a ser alvo de apuração interna coordenada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.
O município sustentou ainda que aperfeiçoou os protocolos de proteção, instituindo senhas individuais reforçadas, confirmação por mensagem de texto (SMS) e autenticação em duas etapas obrigatória. Por fim, a administração destacou que o programa é monitorado pelo Tribunal de Contas do Município e conta com o suporte de consultores especializados em governança e proteção de dados.
