Com estreia marcada no dia 22 de outubro de 2026, às 14h, no VI Encontro de Ideias Audiovisuais, evento de mercado da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “O jogo da minha vida” revisita a histórica conquista do São Paulo Futebol Clube em 1992: o Mundial de Clubes em Tóquio. Feito que iria se repetir em 1993 com o bicampeonato.
Esse momento transformou a forma como o Brasil passou a enxergar o torneio mundial e projetou não somente o clube internacionalmente, mas o futebol brasileiro. Na esteira das conquistas são-paulinas, o Brasil ainda seria tetracampeão do mundo em 1994. A cobertura da revista Placar, com repórter e fotógrafo em Tóquio, registrou os bastidores e eternizou a memória dessa conquista marcante para o futebol brasileiro.
“O jogo da minha vida” é apresentado pelo Ministério da Cultura (PRONAC 257612), via Lei Federal de Incentivo à Cultura, conhecida popularmente como Lei Rouanet, com patrocínio da Tecnobank, produção da revista PLACAR e produção associada da Coala Filmes. O projeto é uma realização do PLACAR.doc, núcleo de narrativas cinematográficas da revista PLACAR a partir do acervo fotográfico e do catálogo diversificado com mais de 10 milhões de ítens.
Quem conta a história no filme é o ex-jogador Raí, com filmagens exclusivas e inéditas feitas em Paris em fevereiro de 2026. O curta-metragem é o segundo produzido pela revista PLACAR em 56 anos de história, honrando o compromisso de criar conteúdos exclusivos a partir do acervo de PLACAR e conexões com os principais clubes de futebol do Brasil. Preservando a memória afetiva de momentos históricos, ouvindo atletas, jornalistas e torcedores. “Parem as máquinas!”, já disponível no YouTube e exibido no 16o CINEfoot – Festival de Cinema de Futebol, foi o primeiro.
Raí dando autógrafo ao desembarcar no Aeroporto de Tóquio antes do jogo contra o Barcelona (Ricardo Correa/acervoPLACAR)
O projeto mescla o arquivo de PLACAR com filmagens inéditas em VHS feitas em 1992 pelo goleiro Marcos Bonequini, além de um primoroso trabalho de animação feito pela Coala Filmes. O jogo contra o Barcelona em Tóquio foi transformado em anime, inspirado nos clássicos mangás japoneses e na série “Capitão Tsubasa”. O narrador Magno Nunes fez uma narração exclusiva para o filme, que também conta com desenho de som e música inédita d´O Grivo. A mixagem é de Ricardo Zollner e a montagem é de Bruna Callegari, que também assina o roteiro junto com o diretor Piero Sbragia e a finalização.
A conquista do São Paulo representou a ascensão definitiva do futebol brasileiro ao cenário internacional, legitimando a Libertadores da América como caminho obrigatório para a glória dos clubes brasileiros no Campeonato Mundial. No entanto, esse reconhecimento não surgiu de imediato. Até meados da década de 1990, os campeonatos estaduais ocupavam o centro das atenções, sendo prioridade para o planejamento técnico, financeiro e até para a contratação de jogadores. A tradição do futebol brasileiro era fortemente marcada pelas competições locais, como o Campeonato Paulista, Carioca e Mineiro, que mobilizavam torcedores e determinavam o calendário anual dos clubes.
Um exemplo claro desse contexto aparece em uma reportagem da revista Placar, de 1979, que destacava a prioridade do Palmeiras após a contratação de Pedro Rocha, ex-Peñarol: “Todas as forças do Palmeiras estão centralizadas no Campeonato Paulista. Para a Libertadores, o que sobrar.” O próprio Pedro Rocha, ao comentar a diferença de cultura futebolística entre o Brasil e o restante da América do Sul, disse: “Os clubes brasileiros não dão a menor importância à disputa da Libertadores. Para eles, o que vale é o título estadual. A torcida também não liga, nem a imprensa. […] A situação do clube no Campeonato Paulista não é boa e todas as forças estão concentradas para se conseguir a classificação.”
Esses registros evidenciam que, naquela época, a Libertadores não possuía o prestígio que viria a conquistar nas décadas seguintes. Ao contrário do que ocorre hoje, grandes emissoras de televisão não disputavam intensamente os direitos de transmissão do torneio, que despertava pouco interesse no país e raramente chamava a atenção da torcida. Na prática, os clubes brasileiros tratavam a Libertadores como uma obrigação menor ou um evento secundário em comparação aos campeonatos estaduais, que determinavam prestígio local e o planejamento de temporada.
Essa situação começou a mudar na década de 1990, quando a televisão passou a transformar a competição em espetáculo nacional. Em 1992, a recém-fundada Rede OM transmitiu a histórica campanha do São Paulo, comandado por Telê Santana, consolidando uma nova percepção sobre a importância do torneio. O sucesso do clube na Libertadores despertou entusiasmo sem precedentes entre torcedores, imprensa e patrocinadores. No Morumbi, mais de 105 mil torcedores celebraram a conquista; alguns chegaram a invadir o campo, levando pedaços do gramado, bandeirinhas e partes dos uniformes como lembrança. A festa tomou conta do estádio, da cidade de São Paulo e emocionou atletas, comissão técnica e imprensa, marcando uma nova era para o futebol brasileiro.
Após conquistar a América, o São Paulo, consequentemente pôde disputar o Mundial de Clubes no Japão. Em 1992, derrotou o Barcelona, e no ano seguinte superou o poderoso Milan, uma das maiores equipes do mundo, com craques como Maldini, Baresi, Donadoni, Massaro e Boban. No vestiário, um episódio registrado pela Placar eternizou a conquista tricolor: “No vestiário do campeão, só o fotógrafo Ricardo Corrêa, da Placar, fazia a festa. Depois de retratar a celebração dos jogadores, pediu para o técnico posar com a taça. Visivelmente desconcertado, ainda sem cair a ficha, Telê perguntou: ‘Qual delas?’ Ricardo respondeu de bate-pronto: ‘As duas, e sorria, seu Telê, o senhor é campeão do mundo.’” Uma parte dos oito filmes de 36 poses foi revelada lá no Japão depois do jogo. Ricardo fez uma parceria com a France Press e transmitiu as fotografias via Lifax, um equipamento de transmissão que escaneava em três cores e enviava por Telefoto. Ainda não havia internet! “Tinha um cilindro que já fazia uma leitura laser na foto. Demorava uns sete minutos cada cor, 21 minutos ao todo por fotografia. A transmissão digital só começou um ano depois, em 1993”. Algumas fotografias nunca foram reveladas, como a do lance do chapéu de Raí em Guardiola. “O jogo da minha vida” apresenta essa e outras inéditas, que nem mesmo o fotógrafo que tirou as viu.
As transmissões televisivas, a cobertura detalhada da imprensa, a presença maciça das torcidas e as comemorações públicas evidenciaram como o campeonato pôde criar identidades coletivas, fortalecer vínculos sociais e transformar hábitos e tradições em elementos da cultura popular. A partir de então, a Libertadores deixou de ser apenas uma competição esportiva e passou a ser um evento de relevância econômica e simbólica: atraiu patrocínios, valorizou jogadores, ampliou a visibilidade internacional dos clubes e consolidou a marca do futebol brasileiro no exterior.
O São Paulo de Telê Santana, com seu futebol disciplinado, técnico e ofensivo, tornou-se referência internacional, inspirando uma geração de atletas e técnicos. Os títulos também consolidaram o Morumbi como palco de grandes emoções, transformando noites de Libertadores em momentos históricos que ultrapassam o âmbito esportivo e se tornam memória cultural.
Mais do que títulos, essas vitórias mostraram que a Libertadores não é apenas uma competição de clubes, mas um instrumento de transformação social, cultural e econômica. A partir da década de 1990, a competição passou a ocupar o centro das estratégias de clubes, treinadores e empresários, e sua conquista se tornou sinônimo de excelência, ambição e reconhecimento internacional. Afinal, como afirmam torcedores e jornalistas até hoje: “Não existe nada do que uma noite de Libertadores do São Paulo no Morumbi.”
A realização e distribuição de “O jogo da minha vida”, um documentário em curta-metragem, mobilizou mais de 50 empregos diretos e indiretos. Além de ser a identidade de um país, a cultura também é indústria e fomenta a economia. No filme estão mais de 100 fotografias do acervo de PLACAR. A maior parte dessas imagens nunca foi publicada, nunca foi vista e sequer revelada. Estavam ainda nos negativos originais da época.
SINOPSE
Durante 20 segundos, o jogador Raí olha para o horizonte antes de cobrar a falta que definiria o título mundial interclubes de 1992 entre São Paulo e Barcelona. Misturando mangá, o acervo histórico da revista PLACAR, gravações inéditas em VHS feitas em Tóquio e filmagens exclusivas em Paris, o filme mergulha na trajetória de Raí até a conquista do mundo no Japão. Um retrato sobre passado, presente e futuro.
FICHA TÉCNICA
Direção, produção e roteiro: Piero Sbragia
Montagem, finalização e roteiro: Bruna Callegari
Música e desenho de som: O Grivo
Mixagem: Ricardo Zollner
Direção de animação: Mauricio Abbade
Produção executiva: Debora Cavaleri e Natalia Meyer
Produção executiva de animação: Analia Tahara e Cesar Cabral
Supervisão de animação: Rodrigo Martin
Pesquisa: Kaio Figueredo e Piero Sbragia
Narração: Magno Nunes
Produção: revista PLACAR
Produtora associada: Coala Filmes
Duração: 15 minutos
ELENCO
Raí
Cartaz ‘O Jogo da Minha Vida’, de PLACAR (Divulgação)
SERVIÇO
22 de outubro de 2026
14h na Sala Petrobrás
VI Encontro de Ideias Audiovisuais
50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Solar Fábio Prado
Endereço: Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 – Jardim Paulistano – São Paulo, SP
Capacidade: 440 lugares (sujeito à lotação)
Entrada Franca (chegue uma hora antes para garantir o ingresso)
Visão do diretor
Piero Sbragia: “O filme retrata o futebol brasileiro como parte da cultura popular e da identidade do povo, em um período de fortes transformações políticas e econômicas. Vivíamos sob alta inflação e o Brasil conviveu com o primeiro processo de impeachment desde a redemocratização. A conquista do SPFC é também uma conquista dos brasileiros e das brasileiras, que resgataram a autoestima com aquela vitória sobre o Barcelona”.
Piero Sbragia: “A revista PLACAR é a guardiã da memória futebolística brasileira. Eu tinha dez anos e vi esse jogo ao vivo. Eu, palmeirense, torci pelo São Paulo. E torci por causa de meu tio Horácio, que sempre foi muito próximo. Como um pai mesmo. Essa vitória do São Paulo sobre o Barcelona ainda ecoa na minha cabeça. Lembro da coberta no sofá, durante a madrugada, da ligação que fiz pro meu tio depois, naqueles antigos telefones discados. É um passado que ainda vive no meu presente”.
Piero Sbragia, diretor de ‘O jogo da minha vida’ (Divulgação)
Piero Sbragia: “No Japão acredita-se que há espíritos em tudo! Não apenas em nós humanos, mas também nos objetos e na natureza. Essa relação íntima entre as coisas do mundo é um jeito de encarar a vida de uma forma bem diferente da gente aqui no ocidente. Os japoneses tem uma espécie de arte, uma filosofia até, o Kintsugi, que consiste em consertar cerâmicas quebradas com pó de ouro. E a beleza dessa cerâmica é justamente o fato dela já ter sido quebrada. Esse é um conceito tão lindo, chamado de wabi-sabi! Vem do budismo zen, que celebra a beleza da imperfeição, do que é transitório, do que é simples. Ou seja, as coisas vão envelhecer, vão decair, vão se desgastar e até ser destruídas. E é justamente por isso que são tão bonitas: porque nada está aqui para sempre. Como nós, seres humanos, também não estamos. Nós somos quebrados na infância, na juventude. “O jogo da minha vida” mostra que o futebol é o ouro que nos remenda. É o que nos mantém vivos!”
Piero Sbragia: ”Quando decidimos filmar com Raí em Paris fui buscar possíveis cenários e locações. Descobri uma espécie de Coliseu francês, as Arenas de Lutécia. Construídas no Século I e utilizadas até o final do Século III. Lutécia é o antigo nome romano da cidade de Paris. Os romanos deram esse nome pois naquele tempo tudo era uma grande vila de pescadores à margem do Rio Sena. Na época das cheias, o Sena subia e depois das enchentes, na estiagem, deixava tudo coberto de lama. Lutécia vem do latim luti, que significa lama. O grande escritor Victor Hugo escreveu que as arenas são a marca antiga da grande cidade. Ele disse em 1883: “não é possível que Paris, a cidade do futuro, renuncie à prova viva de que era também a cidade do passado. O passado traz o futuro. Quem as destrói, de certo modo, se destrói”. Bonito isso né? É o oposto da nostalgia. É a renúncia do passado como monumento! O nosso presente não é um ponto matemático estático, mas sim o avanço do passado sobre o futuro. O presente é a ação. O passado é a memória”.
Piero Sbragia: “O São Paulo esperou mais de um ano e meio para realizar o sonho! Foram 550 dias de espera entre a decisão do Brasileirão contra o Bragantino em junho de 1991 e a apoteose contra o Barcelona em dezembro de 1992, passando pela conquista da Libertadores da América no meio dessa jornada. Em Tóquio, todo mundo torceu pro São Paulo. O São Paulo ficou maior que o Brasil. Ficou do tamanho do mundo. Um mundo vermelho, branco e preto”.
