
Embora a expressão “nuvem” sugira que nossos dados flutuam no ar, a realidade é física e vulnerável: entre 95% e 99% de todo o tráfego de dados do planeta viaja por cabos de fibra óptica esticados no fundo dos oceanos.
Recentemente, declarações do governo iraniano sobre o Estreito de Ormuz acenderam o alerta sobre a segurança dessa infraestrutura vital. A seguir, entenda o que é fato, o que é exagero e como essa discussão afeta inclusive o Brasil.
1. O Exagero e a Realidade da Ameaça Iraniana
Durante um evento em Teerã, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou que sete grandes cabos submarinos passam pelo Estreito de Ormuz e que “toda a internet do mundo depende deles”, ameaçando transformá-los em alvos caso conflitos com Estados Unidos e Israel voltem a escalar.
O que é exagero?
- Impacto Global Limitado: A afirmação de que a internet mundial seria desligada é falsa. Segundo o Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC) e a consultoria TeleGeography, passam por Ormuz 5 cabos ativos (e não 7), que representam menos de 1% do tráfego internacional de dados.
O que é risco real?
- Vulnerabilidade Regional: A região do Golfo Pérsico seria severamente afetada. Cabos cruciais como o AAE-1 (ligando Ásia e Europa) e o FALCON (conectando a Índia aos países do Golfo) passam por ali.
- Sobrecarga de Rotas Alternativas: Países como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Catar sofreriam com lentidão, pois as rotas terrestres de contingência não têm capacidade suficiente para absorver todo o tráfego desviado.
- Guerra Burocrática e Taxações: Além do dano físico, o Irã ameaçou cobrar taxas para o trânsito de cabos em suas águas, o que atrasaria manutenções e novas instalações.
2. Por Que Proteger Cabos Submarinos É Tão Difícil?
Incidentes no fundo do mar acontecem com frequência, mas a fronteira entre acidentes cotidianos e sabotagem geopolítica costuma ser tênue:
- Ocorrências Frequentes: Cerca de 200 cabos são danificados por ano no mundo, a maioria causada por âncoras de navios e redes de pesca.
- A “Arma Silenciosa”: Como é extremamente difícil provar a intenção de um dano submarino, interromper conexões tornou-se uma ferramenta estratégica de pressão geopolítica sem a necessidade de assumir a autoria.
- Atrasos na Manutenção: Um corte em zonas de conflito (como no Mar Vermelho ou no Golfo) exige autorizações que podem levar até dois meses para a chegada de navios especializados em reparos.
3. O “Mito da Nuvem” e os Investimentos de Gigantes da Tecnologia
Diferente dos satélites — que transmitem volumes menores de dados a custos elevados —, os cabos submarinos de fibra óptica oferecem alta velocidade, enorme capacidade e menor custo.
- Dimensão: Cada cabo tem espessura semelhante à de uma mangueira de jardim, contendo internamente até 24 pares de fibras.
- Investimentos Bilionários: Grandes empresas de tecnologia (Big Techs como Google, Amazon, Meta e Microsoft) lideram os aportes financeiros para a expansão dessa rede, visando cobrir a crescente demanda por inteligência artificial e dados comerciais. No entanto, essas redes foram desenhadas focado na eficiência econômica, e não na resistência a cenários de guerra.
4. E o Brasil com Isso? O Caso de Fortaleza
O debate sobre a segurança de cabos submarinos não é exclusivo do Oriente Médio ou da Europa. O Brasil ocupa uma posição estratégica no Atlântico Sul, mas também enfrenta desafios de concentração.

Hub da América Latina: A Praia do Futuro, em Fortaleza (CE), concentra cerca de 90% do tráfego internacional de dados do Brasil, abrigando 16 cabos ativos (com projetos para expandir para 18).
- Conexões Diretas: De Fortaleza saem cabos para os EUA, África (como o SACS, para Angola) e Europa (o EllaLink, que liga o Brasil a Portugal sem passar pelos EUA).
- O Desafio da Soberania Digital: A grande concentração de dados em um único ponto geográfico exige políticas robustas de segurança cibernética, monitoramento constante e infraestrutura de contingência. No Brasil, discussões para uma Política Nacional de Cabos Submarinos buscam consolidar o país como um ponto neutro e seguro no Atlântico Sul.
