A busca por estabilidade financeira e inserção no mercado de trabalho formal reuniu dezenas de estrangeiros no centro da capital paulista. Durante um mutirão voltado à inclusão socioprofissional, migrantes e solicitantes de refúgio receberam orientações práticas para superar as barreiras de contratação e abrir os próprios negócios em território brasileiro.
Oportunidades e regularização documental
Batizado de Conexões que Transformam, o evento foi realizado nas dependências da Aliança Brasil Cidadã por meio de uma parceria entre o Grupo Mulheres do Brasil, a Konecta Brasil e a Konecta Foundation. Ao todo, 138 participantes de 23 nacionalidades tiveram acesso a suporte jurídico para documentação, tradução de histórico profissional para o português, oficinas de capacitação e postos de trabalho abertos.
De acordo com Flavio Simonato, diretor de Pessoas da Konecta Brasil, a intenção é criar pontes imediatas: “Um dos objetivos principais [da ação] é possibilitar que esses refugiados que estão no nosso país trabalhem ou façam as adequações necessárias da sua documentação e para que estejam com seus currículos preparados e atualizados”. Além do auxílio profissional, as famílias cadastradas foram contempladas com brinquedos e cestas de alimentos.
Empreendedorismo como saída para o desemprego
A taxa de desocupação entre os participantes atendidos na iniciativa chegou a 70%, cenário que impulsiona o interesse em tocar projetos autônomos. Mais da metade dos presentes manifestou a vontade de abrir um CNPJ, embora ainda esbarrem na falta de direcionamento técnico.
Essa realidade foi detalhada por Maria Helena Santuche, líder do Comitê de Inserção de Refugiados e Migrantes do Grupo Mulheres do Brasil: “A maior parte dessas pessoas quer empreender, mas elas não têm muita ideia ainda [em como fazer isso], porque justamente esse é um empreendedorismo por necessidade, não por oportunidade”.
Um dos participantes foi o venezuelano Victor Arce, de 65 anos, que chegou ao Brasil há um ano ao lado da esposa, Morelba Margarida Aquilar, de 64 anos, e da filha. Marceneiro em seu país de origem, ele passou a confeccionar peças de artesanato para manter a renda familiar enquanto busca formalizar um negócio próprio. “Estou buscando maneiras de empreender, de abrir uma microempresa”, afirmou Victor. Ele elogiou o acolhimento local: “Aqui se encontra muito apoio ao imigrante, a imigrantes de todos os países do mundo. Essa é uma ideia muito boa e que poucos países têm”.
Barreiras de validação e idioma
Os desafios enfrentados pela população deslocada vão além do acesso a vagas simples. Segundo Eliane Franco Figueiredo, cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil, a maior parte do público atendido é originária da Venezuela, de Cuba, da República Democrática do Congo e do Haiti. A perda do status profissional prévio é recorrente: “A gente tem médicos aqui, por exemplo, que não podem exercer sua profissão aqui [no Brasil] porque a validação de diploma demora muito. Então, [nesse local] estamos fazendo todo esse tipo de ação para a empregabilidade e de capacitação para o trabalho”.
Estimativas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) apontam que a população sob proteção internacional no Brasil já ultrapassa um milhão de indivíduos, vindos de cerca de 160 países. Recentemente, a capital paulista também tem registrado fluxos expressivos de pessoas deslocadas por guerras e crises no Afeganistão, Irã, Síria e Palestina.
Conforme apontou Vivian Holzhacker, associada de Soluções Duradouras do Acnur, as principais dificuldades logo na chegada envolvem a comunicação e as exigências imediatas de subsistência: “O idioma é a primeira barreira para todas essas pessoas porque pouquíssimos países falam português. E, depois, existe uma urgência para trabalhar. Eles não têm uma rede de apoio, não têm moradia, então existem vários desafios. Muitas vezes as pessoas têm diploma de nível superior, mas acabam trabalhando no emprego que aparece, naquilo que elas conseguem [encontrar aqui no Brasil]”.
Canais permanentes de acolhimento e capacitação
Para aqueles que não puderam comparecer à mobilização no centro da capital, há serviços de atendimento contínuo. Pelo canal digital Plataforma Help, mantido pelo Acnur, migrantes podem consultar organizações parceiras filtrando serviços por município e estado para suporte com documentação e programas de geração de renda.
Na Aliança Brasil Cidadã, a qualificação profissional ocorre durante todo o ano, com cursos gratuitos abertos à comunidade. “E aqui nós temos cursos abertos o ano todo como de informática, inteligência artificial e manicure. Eles podem se inscrever gratuitamente para fazer esses cursos”, pontuou a vice-presidente da entidade, Sidnea Evangelista. Informações adicionais também podem ser solicitadas diretamente pelo e-mail refugiados@grupomulheresdobrasil.org.br ou nos canais da Konecta Brasil.
