O Congresso Nacional formalizou a promulgação da Emenda Constitucional que extingue a escala de trabalho 6×1 em todo o território nacional. A alteração estabelece o direito a dois dias de descanso semanal remunerado e determina a queda gradual do limite máximo de trabalho de 44 para 40 horas por semana, sem qualquer desconto nos salários. Trata-se da primeira reformulação ampla da carga horária brasileira em quase quatro décadas, repetindo o marco histórico estabelecido pela Constituição de 1988, quando o teto havia caído de 48 para 44 horas semanais.
Cronograma de transição e aplicação prática
Diferentemente dos projetos de lei convencionais, que demandam sanção do Poder Executivo, as emendas à Constituição entram em vigor a partir da promulgação da Mesa Diretora do Parlamento. Contudo, para garantir tempo de adequação ao setor produtivo e aos empregados, foi estabelecido um cronograma escalonado de implementação.
A transição ocorrerá em duas fases distintas ao longo de 14 meses:
Primeira etapa (16 de dezembro de 2026): a carga máxima semanal cai para 42 horas, passando a vigorar a exigência obrigatória de dois dias de descanso remunerado por semana.
Segunda etapa (16 de dezembro de 2027): entra em vigor a redução definitiva da jornada para o limite de 40 horas semanais.
Pela nova legislação, os dois dias de repouso não precisam ser necessariamente consecutivos nem coincidir com o sábado e o domingo, embora haja preferência constitucional para que um deles recaia no domingo. O texto exige apenas a concessão de dois períodos de 24 horas consecutivas de folga, que podem ocorrer de forma intercalada durante a semana. A norma também mantém a jornada máxima diária de oito horas, além de preservar as diretrizes vigentes para horas extras e banco de horas.
Quem tem direito e quais são as exceções
A extinção do regime 6×1 atinge de imediato aproximadamente 14,8 milhões de brasileiros submetidos a esse formato. Além disso, trabalhadores que já atuam de segunda a sexta-feira também serão beneficiados: aqueles que cumpriam 8 horas e 48 minutos diários para compensar o sábado verão sua jornada diária diminuir para se adequar ao limite de 40 horas, mantendo a remuneração integral.
A abrangência abarca a maior parte dos profissionais regidos pela CLT, tanto da iniciativa privada quanto terceirizados — no caso dos terceirizados do setor público, as adequações ocorrerão por meio de ajustes nos contratos vigentes. Por outro lado, o texto constitucional estabeleceu regras particulares para determinados segmentos:
Profissionais hipersuficientes: empregados com curso superior e renda mensal superior a 2,5 vezes o teto previdenciário (acima de R$ 21,1 mil) mantêm o direito a dois dias de repouso, mas ficam desobrigados do limite de 40 horas e do controle de ponto.
Serviços contínuos e essenciais: áreas como saúde, transporte público, segurança e limpeza urbana mantêm a autorização para regimes específicos, a exemplo da escala 12×36, desde que cumpridos os intervalos legais e as convenções coletivas.
Autônomos e prestadores PJ: por não possuírem relação de emprego sob o regime celetista, continuam subordinados aos termos contratuais combinados entre as partes.
Jornadas já reduzidas: funções com carga legal previamente fixada abaixo de 40 horas — como operadores de telemarketing e bancários — não terão nova diminuição de horário nem acréscimo de folgas.
Microempreendedores Individuais (MEIs): a mudança não afeta a rotina do titular, mas, caso possua funcionário contratado via CLT, deverá cumprir integralmente o novo teto. O Congresso editará ainda uma lei complementar com regras diferenciadas de transição voltadas a micro e pequenas empresas.
Proteção constitucional e tentativas de alteração
Por ter sido integrada ao artigo 7º da Constituição Federal — dispositivo que abriga garantias como 13º salário, férias remuneradas e FGTS —, a nova jornada passa a ter status de norma constitucional. Isso impede que leis ordinárias posteriores ou decisões do Executivo revoguem o benefício, exigindo o apoio de três quintos da Câmara e do Senado em dois turnos para qualquer modificação futura.
Apesar da blindagem, setores contrários articulam propostas alternativas. É o caso da PEC 12/2026, de autoria do senador Rogério Marinho, que sugere a chamada Jornada Flexível. A proposta pretende instituir a remuneração proporcional às horas efetivamente trabalhadas e ampliar o valor de contratos individuais, com retomada dos debates prevista para 2027.
Aprovação expressiva no Congresso e debate econômico
Diante de levantamentos que apontavam cerca de 70% de aprovação popular à redução da jornada em pleno ano eleitoral, a matéria obteve placares amplos. Na Câmara dos Deputados, foram 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 no segundo. No Senado, o placar foi de 75 a 1 em ambas as votações — sendo o senador Hamilton Mourão o único voto divergente, enquanto o senador Sergio Moro não votou.
O setor empresarial, contudo, manifestou forte preocupação com os custos operacionais. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria indicam que a adequação para 40 horas semanais sem corte salarial pode gerar elevação de custos de até R$ 267,2 bilhões, impactando a competitividade e provocando alta de 6,2% nos preços finais. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes projetou aumento de quase 20% nas despesas de funcionamento, ao passo que entidades como a FIEMG e a ABPA alertaram sobre riscos à oferta de produtos e à geração de vagas formais.
A trajetória da pauta: das redes sociais ao plenário
A emenda promulgada sintetizou propostas legislativas que tramitavam há anos no Parlamento. A redução para 36 horas já havia sido sugerida pelo senador Paulo Paim em 2015 e pelo deputado Reginaldo Lopes em 2019. Posteriormente, a deputada Erika Hilton pautou a escala 4×3 por meio da PEC 8/2025, enquanto o governo federal propôs a jornada de 40 horas em 2026. A unificação das matérias foi consolidada pelo relator Leo Prates na Câmara e referendada por Omar Aziz no Senado.
O impulso decisivo para a aprovação, entretanto, teve origem digital. Em setembro de 2023, o ex-balconista de farmácia Rick Azevedo gravou um vídeo relatando a rotina exaustiva da escala 6×1 e a inviabilidade de manter convívio familiar, estudos e descanso. A publicação transformou-se em um movimento de massa impulsionado por trabalhadores do setor de serviços, alcançou amplitude política nacional e resultou na eleição de Azevedo para o Legislativo.
