Um cenário de forte agitação social tomou conta de diferentes centros urbanos do continente europeu ao longo do fim de semana. Insatisfeitos com a alta no custo de vida, a precarização dos serviços essenciais e escândalos políticos, manifestantes entraram em confronto direto com forças de segurança, deixando um rastro de destruição patrimonial e dezenas de detidos.
Conflitos e detenções nas ruas italianas
No domingo (18), o centro de Milão foi palco de episódios graves de tumulto. Indivíduos encapuzados depredaram estabelecimentos comerciais, quebraram vitrines e colocaram fogo em lixeiras nos arredores da icônica Piazza Duomo. A reação do policiamento de choque envolveu jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo para dispersar o grupo, resultando na condução de mais de 70 pessoas à delegacia para averiguações.
A violência já vinha se desenhando desde o sábado anterior, quando distúrbios simultâneos em cidades do norte italiano — como Turim, Bérgamo, Bolonha, Bréscia e a própria capital financeira da Lombardia — terminaram com a prisão de 28 ativistas.
Diante do quadro de desordem, a primeira-ministra Giorgia Meloni convocou uma reunião emergencial de segurança para a segunda-feira (19). A líder italiana repudiou duramente as ações registradas.
No sábado, a premiê havia definido os causadores das depredações como “vândalos que se aproveitam das manifestações para semear o caos, atacar aqueles que garantem a segurança e fazer cidades inteiras de reféns”. Em publicação na rede social X, ela complementou sua postura sobre as manifestações: “Manifestar-se é um direito. Devastar nossas cidades não é”.
Crise política e revolta estudantil na Albânia
Em paralelo, a Albânia vivencia seu sexto dia consecutivo de convulsão social. Conduzidas sobretudo por estudantes, as marchas ocuparam Tirana e se alastraram pelo território nacional, impulsionadas pela revolta generalizada contra o desemprego, deficiências na educação e suspeitas de corrupção governamental. Os registros da polícia apontam que 388 pessoas já foram formalmente denunciadas, enquanto diversos agentes e civis ficaram feridos.
Durante os protestos mais recentes, agências bancárias e prédios da administração pública foram incendiados, paralelepípedos foram arrancados para servir de projéteis e vitrines acabaram estilhaçadas. Próximo ao Ministério da Educação, o batalhão de choque interveio com munições de borracha, canhões de água e agentes químicos.
Para conter o avanço do grupo, máquinas chegaram a retirar o calçamento diante do gabinete oficial, medida que gerou descontentamento popular. “Isso não vai parar os manifestantes. Foi feito apenas para remover qualquer forma de proteção contra a polícia”, criticou Elton Prendi, morador de Tirana.
Resistência de Edi Rama e o impacto na União Europeia
Apesar da intensa pressão por sua saída, o primeiro-ministro Edi Rama, no poder desde 2013, descartou renunciar. O líder alegou que os distúrbios colocam em risco o plano albanês de entrar para a União Europeia até 2030.
“Não sou eu que estou sendo desafiado, nem o governo ou a maioria vencedora nas eleições. O que está sendo desafiado é um caminho, uma missão”, declarou Rama em pronunciamento via Facebook. Ele acrescentou: “Os albaneses precisam pensar com muita clareza: eles querem isso [os protestos] ou querem a UE?”.
O chefe de governo cancelou uma viagem a Viena onde se encontraria com o chanceler austríaco, Christian Stocker, e sugeriu que interesses externos estariam por trás da desestabilização e de um suposto ataque por drone contra seu gabinete. “Deus sabe quais serão as consequências. Não há jovens, estudantes ou menores que sequer pensariam em implementar esse plano. Isso é [obra de] uma mão estrangeira”, argumentou, defendendo ainda que sua gestão combate os crimes “como nunca antes”.
A insatisfação recente também se apoia em atritos ocorridos meses antes, quando protestos se opuseram a um empreendimento de luxo litorâneo apoiado por Jared Kushner, genro do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. A Comissão Europeia lamentou os atos violentos, embora tenha ressaltado a importância da livre manifestação pacífica.
Reflexos do descontentamento na França
O clima de instabilidade não se restringiu à Itália e aos Bálcãs. A França também enfrentou passeatas massivas no fim de semana, com centenas de milhares de pessoas mobilizadas contra os índices inflacionários e o desmonte dos serviços estatais. Paris voltou a registrar episódios de confronto na tarde de domingo, consolidando um dos períodos de maior atrito social enfrentados pelos governos europeus nos últimos anos.
