Lançado oficialmente em 7 de outubro de 2006, o projeto “1000 Trutas, 1000 Tretas” transformou-se em um marco fundamental para a história do hip-hop no Brasil. O primeiro DVD da trajetória dos Racionais MC’s levou mais de quatro anos para ser finalizado e reuniu pilares caros ao grupo: autonomia criativa, independência perante a grande mídia e um compromisso irrestrito com a realidade das periferias.
O tropeço técnico na estreia no Brás
Após colocar nas ruas o aclamado disco duplo “Nada Como um Dia após o Outro Dia” (2002), sucessor do divisor de águas “Sobrevivendo no Inferno” (1997), Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay planejaram um registro em vídeo para coroar a fase vitoriosa. Embora gravações ao vivo fossem frequentes no mercado nacional, a iniciativa representava algo inédito para o rap brasileiro.
A primeira tentativa ocorreu no galpão Casaluce, localizado no Brás, na capital paulista. Planejado para acomodar 3 mil pessoas, o local reuniu um público estimado em 10 mil espectadores. A superlotação resultou em problemas graves de infraestrutura que inviabilizaram o aproveitamento do material.
“Com a superlotação, alguns cabos acabaram sendo pisados e danificados, comprometendo a captação, e aquele material não pôde virar o DVD. A gente podia ter parado ali, mas decidiu fazer de novo”, recordou Mano Brown.
A volta por cima no Sesc Itaquera
Em vez de desistir, os Racionais decidiram refazer o trabalho mantendo a equipe original. A direção foi confiada a Roberto T. Oliveira, da Sindicato Paralelo Filmes, profissional que já havia colaborado com Chorão e que foi convidado por Ice Blue para assumir o projeto. Antes de rodar as novas imagens, Oliveira passou a viajar com a banda pelo país.
“Isso ajudou a criar uma conexão com todo o grupo. Durante anos, eu estava ali no palco, nos bastidores, gravando um acervo incrível. Construímos uma amizade e eu também passei a entender melhor cada um. Óbvio que, na hora de gravar, essa proximidade ajuda no resultado final”, destacou o diretor.
A segunda sessão de gravação ocorreu em abril de 2004, durante apresentação no Sesc Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. O custo da obra chegou a R$ 400 mil na época — montante equivalente a cerca de R$ 1,5 milhão em valores corrigidos —, totalmente bancado pelos cofres do grupo, que recusou parcerias com emissoras de televisão e manteve regras estritas: entradas com valor máximo de R$ 20 e ausência de policiamento sobre o palco.
“Eu não ganhei nem cachê para o DVD. Eu sabia que não era um projeto fácil e eles sempre me pagaram religiosamente. A gente fez no amor, por isso que saiu. Os Racionais são leais, eles escolhem a dedo quem trabalha com eles. Fico feliz de ter feito parte não só desse projeto, mas de ter contribuído com a cultura e ter mantido uma amizade com o grupo, principalmente com Mano Brown”, afirmou Roberto.
Cenografia e identidade visual
A concepção visual ficou a cargo de Flávio Sadella, que desenvolveu uma estética inspirada na faixa “Vida Loka Pt. 2”. A ideia central era erguer no palco uma réplica estilizada do ambiente das favelas.
“Eu participei da concepção para o primeiro show. Fizemos algumas reuniões na minha casa e decidimos por essa reprodução da favela, com algumas características específicas, pensando na liberdade que eles queriam também para improvisar na hora”, explicou Sadella, que hoje atua no mercado de alto luxo com o Stdio Sadella. O cenógrafo completou: “O que mais me encanta é saber que fizemos um trabalho visionário. À época, não tinha led, a tecnologia era outra. Você vê o Palco Favela, do Rock in Rio, por exemplo, e há uma inspiração clara no que foi esse DVD.”
Bastidores: Jorge Ben Jor e câmera quebrada na plateia
O repertório guardou momentos que entraram para o imaginário dos fãs logo na abertura, protagonizada por Jorge Ben Jor. Mano Brown definiu a faixa que o ídolo tocaria instantes antes do início, enquanto o convidado cortava o cabelo no camarim. Brown, que batizou seus filhos Kaire Jorge e Domênica em homenagem ao músico, sugeriu uma faixa menos óbvia: “Abenção Mamãe, Abenção Papai”, lançada no álbum “Sonsual”, de 1984.
O encerramento trouxe outra passagem memorável. Durante a execução de “Vida Loka Pt. 2”, Ice Blue saltou em direção à multidão. No meio do contato físico com a plateia, o cinegrafista Rodney Suguita teve seu equipamento avariado.
“Eu era o único cinegrafista ‘livre’, então fui com a câmera para o camarim e, durante o show, fiquei no público, rodando. Quando o Blue foi para o público, ele foi dando tapa para tudo quanto é lado e acabou acertando a lente e o visor, que quebrou. Gravei todo o resto sem um retorno de imagem”, relatou Suguita. “Eu estava muito cansado, foi uma longa diária. No fim das contas, eu fiquei 15 horas em pé para pegar um take de 30, 40 segundos. Mas valeu a pena porque entrou para a história.”
Impacto cultural e consagração popular
O intervalo entre a captação em Itaquera e a estreia em 2006 deveu-se à montagem de um formato híbrido, mesclando show ao vivo e registros documentais da rotina na estrada ao longo de cerca de 400 apresentações realizadas entre 2002 e 2006, com passagens por Estados Unidos, Europa e Japão.
Distribuído maciçamente nas bancas e no comércio popular daquele período, o registro se consolidou como uma febre comparável a grandes lançamentos nacionais da época. Atualmente, a gravação ultrapassa 136 milhões de reproduções no Spotify, e o canal do quarteto soma mais de 2,9 bilhões de acessos no YouTube. Como sintetizou o diretor Roberto T. Oliveira sobre o alcance nas ruas: “Não tem prova maior de sucesso do que essa”.
