O cenário musical brasileiro perdeu uma de suas vozes mais autênticas. O cantor, pianista e compositor Benito Di Paula faleceu na noite deste domingo, 18 de outubro, no Hospital 9 de Julho, na capital paulista. Prestes a completar 85 anos no mês seguinte, o músico não resistiu ao agravamento de um câncer de próstata diagnosticado há cerca de um ano. Informações a respeito do velório e do sepultamento ainda não foram divulgadas pelos familiares.
A batucada nas teclas e a criação do “sambeiro pianeiro”
Batizado como Uday Velloso, o artista nasceu em Nova Friburgo, na Região Serrana fluminense, e cresceu na cidade do Rio de Janeiro. Sua formação artística foi moldada nas noites e boates, ambiente em que transformou o piano clássico em instrumento percussivo. Dessa forma singular de tocar, com suingue rítmico, o instrumentista desenvolveu um formato sonoro que mais tarde serviria de referência para a explosão do pagode paulista repleto de teclados na década de 1990, a exemplo do grupo Raça Negra.
Embora tenha atingido o auge no mesmo período em que despontavam expoentes tradicionais do gênero, como Paulinho da Viola e Martinho da Vila, o fluminense rejeitava o rótulo convencional de sambista. Ele preferia definir sua identidade profissional como “sambeiro” e “pianeiro”, tendo como sua maior referência estética o compositor Ataulfo Alves. Além da batida rítmica, Benito marcou a televisão da década de 1970 com uma estética inconfundível: longas madeixas, casacas elegantes, gravatas-borboleta e uma vasta coleção de joias entre anéis e colares.
O auge nos anos 1970 e a sequência de sucessos populares
Após estrear no mercado fonográfico em 1967 e lançar trabalhos autorais no início dos anos 1970, como a faixa “Violão não se empresta a ninguém”, o artista atingiu o estrelato definitivo em 1973. Naquele ano, lançou o compacto de “Retalhos de cetim”, samba-canção melancólico que alcançou vendas astronômicas em todo o território nacional.
O estrondoso êxito abriu caminho para uma das fases mais férteis da MPB, predominantemente gravada pelo selo Copacabana. Entre 1973 e 1977, Benito emplacou uma sequência memorável de hits, incluindo “Charlie Brown”, “Beleza que é você mulher”, “Bandeira do samba”, “Como dizia o mestre”, “Vai ficar na saudade”, “Tudo está no seu lugar”, “Assobiar e chupar cana”, “Proteção às borboletas” e a confessional “Do jeito que a vida quer”, célebre pelas linhas “…É que meu samba me ajuda na vida / Minha dor vai passando esquecida”.
Novelas, independência e homenagens no Carnaval
A força melódica do compositor permaneceu presente na década seguinte. Em 1981, registrou forte repercussão com “Ah! Como eu amei”, faixa escrita por seus irmãos Jota e Nei Vellozo. Três anos depois, compôs com Márcio Brandão Carneiro a canção “Amigo do sol, amigo da lua”, que ganhou projeção massiva ao integrar a trilha sonora da novela A Gata Comeu, exibida pela TV Globo em 1985.
Com o avanço dos anos 1990 e as transformações na indústria fonográfica, o compositor passou a produzir de forma mais espaçada após o disco Baileiro (1996). Voltou a apresentar canções inéditas nos elogiados álbuns A felicidade é nossa (2017) e O infalível zen (2021), lançado para comemorar suas oito décadas de vida.
O reconhecimento definitivo de sua obra veio também da cultura popular. No Carnaval de 2025, a tradicional agremiação paulistana Águia de Ouro escolheu a vida do compositor como tema central do enredo “Em Retalhos de Cetim, a Águia de Ouro do jeito que a vida quer”, momento em que Benito desfilou em destaque e foi ovacionado no Sambódromo do Anhembi, consolidando seu papel pioneiro na música nacional.
