De olho na sucessão de 2027, o senador Davi Alcolumbre (União-AP) já deu início às movimentações de bastidor para garantir a continuidade de seu mandato na presidência do Senado Federal. A articulação do parlamentar ocorre em um cenário aberto, preparando terreno tanto para um eventual governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto para uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa pelo Palácio do Planalto.
Estratégia para rachar a bancada do PL
A corrida eleitoral interna ganhou força após o dirigente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, vetar o apoio à permanência de Alcolumbre e confirmar a intenção de lançar Rogério Marinho (PL-RN) ao cargo. Fortalecido nas urnas em 2026 com 19 novos eleitos, o PL passará a contar com 29 assentos no plenário.
Para barrar a ofensiva da sigla opositora, Alcolumbre desenhou uma tática voltada para atrair dissidentes do próprio PL que já integram seu grupo político. O principal expoente dessa ponte é o atual vice-presidente da Casa, Eduardo Gomes (PL-TO), cotado para assumir a relatoria-geral do Orçamento de 2027. A função orçamentária estava pré-acordada com a bancada do MDB, mas pode ser cedida como gesto estratégico aos liberais moderados.
Interlocutores do atual presidente relembram que o PL já enfrentou o bloco majoritário no passado recente e saiu derrotado. No pleito de 2023, Marinho disputou contra Rodrigo Pacheco e perdeu por 49 votos a 32, situação que isolou o partido por dois anos dos postos de comando da Mesa Diretora e das comissões temáticas. Para a nova disputa, os cálculos preliminares do grupo de Alcolumbre estimam uma base segura entre 44 e 49 votos favoráveis.
Bate-boca com Rogério Marinho e união de bancadas
O clima de disputa entre os concorrentes esquentou publicamente na quinta-feira (15), quando Alcolumbre decidiu retirar de pauta a PEC da Segurança Pública, provocando uma áspera discussão com Rogério Marinho:
“A retirada de pauta se deveu ao pedido do governo?”, questionou Marinho .
“Não, a retirada de pauta se deveu à minha decisão da Presidência do Senado Federal”, respondeu Alcolumbre.
“Mas eu pergunto à vossa excelência: baseada em quê? Porque há uma expectativa da população”, insistiu Marinho.
“Baseado na decisão da presidência do Senado Federal”, rebateu Alcolumbre.
“O arbítrio é de vossa excelência, pura e simplesmente?”, questionou Marinho.
“Exatamente”, disse Alcolumbre.
“Bom saber que a gente precisa mudar esse regimento”, pontuou Marinho.
“Exatamente. Vamos mudar”, finalizou Alcolumbre.
Simultaneamente às tensões na oposição, Alcolumbre tem sinalizado cooperação com pautas de interesse do Executivo, como o avanço da proposta que extingue a jornada na escala 6×1. Na terça-feira (13), líderes de grandes siglas partidárias reforçaram a construção de uma frente de apoio à sua reeleição, com manifestações explícitas de Eduardo Braga (MDB-AM) e Otto Alencar (PSD-BA).
“Eu tive a oportunidade de exercer o meu voto favorável à sua Presidência e posso exercê-lo de novo pelo trabalho, pela sua perseverança, pela sua presença no Senado Federal discutindo as matérias”, afirmou Alencar.
Essa coalizão ampla reflete o receio partidário de que uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro combinada ao PL no comando do Congresso retire a autonomia dos parlamentares sobre a distribuição das emendas legislativas, área em que Alcolumbre é tido como negociador central.
Acomodação de novos parlamentares e disputa por espaços
No cotidiano do Congresso, o presidente do Senado intensificou o corpo a corpo por meio da distribuição física de acomodações aos eleitos. As tratativas envolvem tanto os gabinetes do Anexo II — altamente requisitados pelas saídas discretas para o estacionamento privativo — quanto os apartamentos funcionais.
Entre os pontos mais cobiçados estão a sala ocupada pelo senador Jorge Kajuru (PSB-GO), próxima à área de plenários da CPMI do INSS com acesso exclusivo, e gabinetes que chegaram a registrar quase duas dezenas de visitas em um único dia. Ao comentar sobre essa reorganização espacial, Alcolumbre confirmou já ter conversado “com quase todos” os novos parlamentares, incluindo oposicionistas locais como a senadora eleita Rayssa Furlan (PSD-AP), além de colocar em jogo a nomeação para cargos estruturais da presidência.
Equações para STF e Tribunal de Contas da União
Outra engrenagem da negociação envolve vagas em órgãos de cúpula do Judiciário e de controle. Alcolumbre mantém posição firme contra processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), com destaque para a proximidade mantida com Alexandre de Moraes, e segue articulando a indicação de Rodrigo Pacheco, atual ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), para uma cadeira na Suprema Corte.
A manobra funciona como trunfo duplo: sob a gestão de Lula, a formalização de Pacheco asseguraria uma nomeação antes de eventual troca de poder; sob o comando de Flávio Bolsonaro, garantiria um parceiro de confiança no tribunal para conter a pressão contra Moraes. Paralelamente, a eventual ida de Pacheco ao STF liberaria uma cadeira de indicação do Senado no TCU, ativo que pode consolidar apoios ou até servir de alternativa futura para a carreira do próprio Alcolumbre.
