Em um movimento para intensificar o cerco ao narcotráfico e recuperar protagonismo estratégico no continente, o governo dos Estados Unidos colocou em marcha um novo plano militar que desloca centenas de soldados e aeronaves não tripuladas para países da América Latina.
Deslocamento de tropas e tecnologia de vigilância
O planejamento prevê a mobilização de cerca de 600 integrantes das Forças Armadas americanas em missões de capacitação e treinamentos integrados. Os primeiros grupos já desembarcaram em bases no Panamá e têm itinerários previstos para a Colômbia e Honduras. Além das instruções conjuntas, parte do contingente prestará apoio a forças de operações especiais que assessoram corporações locais no enfrentamento a cartéis de entorpecentes.
Paralelamente ao deslocamento humano, os EUA reposicionaram drones MQ-9 Reaper — conhecidos como “caçadores-assassinos” —, antes alocados na África, diretamente para territórios da Colômbia e do Equador. Ambas as nações travam confrontos diários contra organizações criminosas que Washington classifica formalmente como entidades terroristas.
O papel dos assessores e a iniciativa regional
Apesar da chegada do efetivo, a expectativa é de atuação concentrada nos bastidores táticos, e não no confronto armado direto. A análise é do cientista político Maurício Santoro, doutor pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil.
Santoro pontua que o trabalho conjunto visa fortalecer corporações policiais e exércitos alinhados ao Escudo das Américas, plano lançado pelo presidente Donald Trump para reprimir redes de crime organizado — aliança da qual o Brasil não faz parte. Diante da grandiosidade dos objetivos divulgados pela Casa Branca, o especialista vê o contingente de 600 homens como um passo limitado.
“Os militares dos Estados Unidos não estarão diretamente na linha de frente. Quem estará ali arrombando a porta de um laboratório ou prendendo uma quadrilha vão ser os militares ou os policiais desses países”, explica o especialista. “Os americanos simplesmente estarão trabalhando em um cenário de apoio.”
Interesses geopolíticos e disputa com a China
Por trás do pretexto oficial de segurança pública e combate às drogas ilícitas, há uma motivação geopolítica de longo alcance. Para Santoro, a movimentação responde diretamente ao avanço econômico e diplomático de Pequim na América do Sul e Central.
“A própria decisão americana de ter esse tipo de engajamento mais intenso com a região passa por uma leitura geopolítica”, afirma Santoro. “A América Latina hoje é mais importante para os Estados Unidos ou virou uma ameaça para os Estados Unidos por causa da maior influência da China na região.”
Infraestrutura militar e tensões sobre soberania
A estrutura de defesa norte-americana conta atualmente com cinco bases operacionais e três Locais de Segurança Cooperativa (CSLs) no continente, voltados ao suporte logístico. Registros legislativos de março de 2024 apontavam a presença de 1.650 militares da ativa no território latino-americano, patamar que deve ter aumentado com as novas ordens.
Nos últimos meses, a Casa Branca tem adotado medidas contundentes na vizinhança: em janeiro, forças especiais capturaram Nicolás Maduro na Venezuela; em março, uniram-se a frentes de combate a cartéis no Equador; paralelamente, mantêm patrulhas com disparos contra embarcações suspeitas nos oceanos Pacífico e Caribe. Ao longo do último ano, exercícios conjuntos envolveram ao menos 21 países da região, incluindo simulações no estado de Goiás, sob liderança brasileira, e na base naval de Guantánamo.
A ofensiva de Washington, no entanto, gera controvérsias diplomáticas e operacionais. Críticos da área de segurança questionam se o foco no confronto armado é eficiente para frear a cadeia global de drogas, enquanto grupos humanitários apontam riscos à população civil em ações terrestres. Soma-se a isso o temor de que deslocamentos temporários se convertam em bases permanentes, despertando receios sobre a autonomia e a integridade soberana dos países latino-americanos.
