A iminência da votação final da disputa presidencial levou milhares de jovens de volta aos espaços públicos das principais capitais e cidades brasileiras. Com atos convocados por entidades acadêmicas e secundaristas, a juventude intensificou protestos para reivindicar a valorização da educação pública, a preservação do regime democrático e manifestar posicionamento enfático sobre o pleito eleitoral.
Mobilização nas universidades e memória política
A articulação começou nos próprios campi logo após o desfecho do primeiro turno. Uma assembleia na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, extrapolou a capacidade dos auditórios e converteu-se em manifestação de rua. Em seguida, atos de grande porte ganharam as ruas do centro do Rio de Janeiro e de Brasília, reunindo universitários, alunos de colégios tradicionais como o Colégio Pedro II e movimentos sindicais.
A atual presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, aponta que o momento político exige postura ativa dos discentes. “Neste momento, nós vemos não só uma eleição em jogo, mas verdadeiramente o futuro do nosso país em risco”, ressaltou. Segundo a dirigente, a atuação nas ruas resgata episódios marcantes da entidade, como a resistência na ditadura militar, o movimento das Diretas Já e os pedidos de impeachment de Fernando Collor e de Jair Bolsonaro.
“Os estudantes se levantam pelos direitos, pela educação, pela soberania e pela democracia brasileira diante dessa ameaça. Isso é da própria vocação dos estudantes brasileiros, desde a fundação da UNE tem sido assim”, afirmou Bianca.
Divergências com o projeto bolsonarista e disputa jurídica
A UNE formalizou apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A entidade justifica a decisão como uma necessidade de barrar o avanço de plataformas autoritárias e medidas que considera prejudiciais ao setor educacional. Entre as principais preocupações citadas está a ideia levantada por Flávio Bolsonaro (PL) de transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Em sua campanha, Flávio Bolsonaro rebate as críticas, afirmando que preservará os investimentos constitucionais e o piso da área. Seu programa contempla a reformulação do currículo técnico voltada às necessidades corporativas, além do fomento às escolas cívico-militares.
A tensão entre a candidatura liberal e as organizações sociais repercutiu no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva indeferiu recentemente uma representação da campanha de Flávio Bolsonaro, que tentava impedir manifestações em redes sociais publicadas por 54 líderes sindicais, populares e estudantis, incluindo integrantes da UNE.
Pautas de permanência e financiamento público
Além da disputa nas urnas, as organizações estudantis cobram respostas urgentes para a manutenção do ensino superior. Entre as prioridades estão a efetivação da meta de 10% do PIB investido na educação pública, o endurecimento da fiscalização sobre faculdades privadas e a consolidação do Plano Nacional de Assistência Estudantil com orçamento garantido, evitando o abandono dos cursos por universitários de baixa renda.
A diretoria da UNE também atua em favor de uma proposta de emenda à Constituição para que o orçamento federal ajude a custear as universidades estaduais, frequentemente atingidas por crises financeiras locais. A pauta da juventude abrange ainda causas trabalhistas, como as manifestações pelo término da escala de trabalho 6×1.
Trajetória da liderança estudantil
Eleita para estar à frente da UNE no biênio 2025–2027, Bianca Borges tem 25 anos, nasceu em Itapevi e cresceu em Praia Grande, no litoral paulista. Sua militância começou aos 14 anos na Escola Técnica Estadual (Etec) da sua cidade, onde fundou grêmio estudantil.
Graduada pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), instituição na qual dirigiu o Centro Acadêmico XI de Agosto e o DCE Livre, Bianca cursa atualmente Letras no Instituto Federal de São Paulo (IFSP). Antes de assumir a entidade nacional, presidiu a União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), período marcado pela oposição aos projetos do governo paulista de privatização e militarização escolar.
