Organizações comunitárias e moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, intensificaram as ações informativas para orientar a população sobre o local correto de votação no segundo turno. A força-tarefa busca reverter o alto índice de faltosos registrado no pleito de 4 de outubro, após transferências massivas de seções eleitorais na comunidade.
Iniciativas nas ruas para garantir o direito de voto
Para conscientizar os cidadãos e diminuir os índices de abstenção nas 16 comunidades que formam a região, a organização não governamental Redes da Maré promove a mobilização Esquinas por Direitos entre terça-feira (20) e sexta-feira (23). A ação distribui orientações diretas aos pedestres, além de veicular informações em canais digitais e grupos de mensagens.
A campanha reforça que quem faltou à primeira etapa do processo eleitoral pode participar do segundo turno normalmente no próximo domingo (25), mesmo sem cadastro biométrico. Os ativistas também lembram que, como o estado não terá disputa suplementar para governador, o tempo de permanência nas cabines será menor, focando unicamente na escolha presidencial.
A analista de Incidência Política da entidade, a advogada Lia Manso, ressalta a importância de assegurar a presença nas urnas. “O trabalho da Redes da Maré neste momento é estar nas ruas, trazer a dinâmica do debate sobre o voto e a importância da participação democrática, exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa, não só porque é um direito individual, mas porque impacta coletivamente o território e a vida de todas nós”, avalia a advogada.
Dificuldades de deslocamento e longas filas
Nas 41 seções eleitorais da Maré remanejadas pela Justiça Eleitoral, a abstenção alcançou 31,07% no primeiro turno, índice consideravelmente superior à média nacional, que foi de 21,08%. O percentual também superou os 28% apurados em 2024, ano em que a comunidade também enfrentou transferências.
Entre os quase 17 mil votantes impactados na Maré está o fotógrafo Marlon Soares, que expressou frustração com a nova logística: “Eu estou muito incomodado com essa decisão de mudança de local de votação”. Habituado a comparecer às urnas com a família em um colégio sem grandes demoras, ele encontrou um cenário adverso no novo endereço. “Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução para chegar e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”, conta ele, admitindo o desânimo: “Pensei em todo momento em desistir”.
Critérios de segurança definidos pelo TRE-RJ
A reorganização dos pontos de votação partiu de uma diretriz do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). A corte argumentou que o objetivo central foi afastar as urnas de locais dominados por facções armadas e milícias, priorizando endereços que oferecessem menor risco à integridade pública.
No âmbito estadual, a medida transferiu 72 locais de votação distribuídos por 20 municípios fluminenses, impactando cerca de 202 mil cidadãos. Para o segundo turno, o órgão informou que a capital terá modificação em somente um ponto adicional de votação, situado no bairro de Brás de Pina (seções 123 a 127 da 188ª Zona Eleitoral).
Quais colégios foram alterados no território da Maré
Ao todo, 16.907 eleitores da 161ª Zona Eleitoral foram realocados entre as eleições de 2024 e o pleito deste ano:
- 7.268 eleitores que votavam na Escola Municipal Professor Josué de Castro passaram a votar no Centro Educacional Gama E Souza;
- 4.907 eleitores da Escola Municipal Teotônio Vilela foram direcionados para o Bonsucesso Futebol Clube;
- 4.732 eleitores da Escola Municipal Professor Paulo Freire passaram para a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.
Barreiras urbanas e mobilidade da população
O levantamento Como vota a Maré aponta que, em um intervalo de quatro anos, metade do eleitorado local viu seus locais de votação mudarem. Para a entidade responsável pela pesquisa, o distanciamento físico impõe barreiras severas, como a travessia de eixos viários movimentados como a Avenida Brasil e a Linha Amarela, impactando de forma desproporcional idosos, pessoas com deficiência e mulheres que chefiam lares.
Embora a legislação federal (Resolução 23.759/2026 do TSE) garanta a gratuidade dos transportes coletivos nas datas eleitorais, a ONG destaca que “transporte gratuito não é suficiente quando o transporte não chega ao território”. O tribunal informou ter disponibilizado veículos adaptados para pessoas com dificuldade de locomoção por meio do programa Seu Voto Importa, mas declarou que o serviço não registrou procura na região.
