O cancioneiro de um dos maiores nomes da música popular brasileira ganha uma releitura instrumental refinada. Os instrumentistas cariocas Cristovão Bastos (ao piano) e Mauro Senise (no saxofone e na flauta) uniram forças para produzir o disco É luxo só, trabalho totalmente focado na obra do compositor mineiro Ary Barroso (1903–1964).
Sessões ágeis e clássicos imortais no repertório
O projeto foi concretizado em ritmo acelerado nos dias 5 e 6 de outubro, no estúdio da gravadora Biscoito Fino, situado na cidade do Rio de Janeiro. Em apenas dois dias de gravação, a dupla registrou as 14 faixas que compõem o trabalho, contando também com a presença convidada do guitarrista Leo Amuedo.
Intitulado oficialmente É luxo só – Cristovão Bastos e Mauro Senise tocam Ary Barroso, o lançamento revisita composições históricas. A lista inclui sambas célebres como Aquarela do Brasil (1939), Na Baixa do Sapateiro (1938) e Morena Boca de Ouro (1941), além da faixa-título É luxo só, fruto de uma parceria de Ary com Luiz Peixoto apresentada em 1957.
Da tradição pré-Bossa Nova ao universo cancioneiro
Entre os resgates do álbum está No rancho fundo (1931). Originalmente um samba-canção, a peça ganhou contornos do universo sertanejo ao longo das décadas em razão do teor rural dos versos de Lamartine Babo, elaborados sobre a harmonia criada por Ary — que, antes disso, havia recebido uma primeira letra assinada pelo desenhista J. Carlos sob o título Na grota funda.
Peça fundamental da música do Brasil entre os anos 1930 e 1950, o legado de Ary Barroso antecedeu a modernização estética liderada pela Bossa Nova. Décadas depois, o próprio movimento, conduzido por ícones como Tom Jobim e João Gilberto, reverenciou o compositor, cuja herança harmônica ganha agora uma vibrante celebração pelas mãos de dois dos mais conceituados músicos do país.
