O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem insistido em alterar o nome da inteligência artificial para “superinteligência (SI)”. A justificativa apresentada pelo líder americano no mês passado, durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, é que “o nome inteligência artificial faz soar como se ela fosse falsa”. Na ocasião, ele ainda declarou que “de agora em diante, todos os documentos dos EUA e, espero, de todo o mundo, vão utilizar o nome Superinteligência”.
Antes de fixar o termo, Trump chegou a realizar enquetes em sua rede social, a Truth Social, testando alternativas como “Inteligência Superior (IS)”, “Inteligência Extrema (IE)” e “Inteligência Suprema (IS)”. Posteriormente, ele causou polêmica ao ameaçar tratar como “inimigo” quem continuasse utilizando a nomenclatura tradicional. Contudo, o mandatário não detalhou como a transição ocorreria ou se o setor tecnológico apoia a ideia.
A complexidade histórica e científica da IA
Embora o grande público tenha tomado contato mais próximo com a tecnologia recentemente através de ferramentas como o ChatGPT, o conceito existe há mais de 70 anos. A designação formal da área foi estabelecida em meados de 1955, nos Estados Unidos, por meio de pesquisadores como John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon e Nathaniel Rochester, que precisavam de um termo para englobar estudos que misturavam engenharia, matemática e estatística na criação de máquinas com raciocínio semelhante ao humano.
Investigações sobre a temática, contudo, são ainda mais antigas, remontando aos estudos de Alan Turing entre as décadas de 1940 e 1950, além da criação do termo “cibernética” por Norbert Wiener em 1948. Com o passar do tempo, a tecnologia se integrou ao cotidiano em recursos como reconhecimento facial bancário, carros semiautônomos e, mais recentemente, a inteligência artificial generativa.
Avaliação de especialistas sobre a investida política
Para Anderson Soares, fundador e professor do Centro de Excelência em Inteligência Artificial (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG), a própria definição de inteligência permanece imprecisa tanto na biologia quanto na tecnologia.
“O que chamamos hoje de inteligência artificial está relacionado à capacidade das máquinas de realizar tarefas que associamos à inteligência humana”, afirma Soares.
“O objetivo de mudar o nome me parece muito mais um contragolpe na questão de paralisar o desenvolvimento da IA. Parece mais um ato político do que efetivamente algo construtivo e que contribua para o que está acontecendo em termos de desenvolvimento”, completa.
Estratégia de soberania e marketing internacional
Na visão de Cleber Zanchettin, professor de Engenharia da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a menção feita na ONU funcionou puramente como ferramenta publicitária.
“Primeiro, ele disse ‘bem-vindos ao novo mundo da superinteligência’ e completou com ‘vamos ver se isso vai dar certo’. Isso revela uma jogada de marketing para chamar atenção, sem efeito prático”, disse o docente.
Já o pesquisador Allan Pscheidt interpreta a proposta como uma demonstração de poder na disputa global pelo conceito de AGI (Inteligência Artificial Geral).
“A gente está vivendo algo parecido com o que aconteceu na corrida para a Lua e na corrida espacial. Estamos passando agora para a corrida pela AGI (Inteligência Artificial Geral)”, diz Pscheidt.
“Quando Trump vem com a ideia de cunhar o termo ‘superinteligência’, ele está avisando ao mundo que os EUA vão atingir a AGI muito em breve e que, com isso, vão mostrar sua soberania tecnológica”, afirma. Até o momento, cabe destacar, não há comprovação científica de que a AGI já exista.
O impacto da nomenclatura na percepção pública
Zanchettin também aponta que a introdução de nomenclaturas mais fortes pode intensificar o receio da população, visto que pesquisas indicam que a maioria dos brasileiros e americanos demonstra mais preocupação do que entusiasmo com o avanço tecnológico.
“Introduzir um termo como ‘superinteligência’ ou ‘inteligência suprema’ pode soar como uma ameaça aos humanos e aumentar a rejeição do público”, explica Zanchettin.
“Poucos países e populações abraçaram a tecnologia de fato, e a maioria das pessoas ainda está tentando entender o que é a IA básica e como ela funciona”.
Apesar das turbulências e debates políticos em torno do tema, a trajetória das inovação costuma seguir um padrão previsível, conforme avalia Anderson Soares: “as ondas tecnológicas costumam passar por fases relativamente previsíveis: primeiro provocam medo e desconfiança; depois vêm a aceitação e o encantamento; e, com o tempo, a tecnologia passa a ser compreendida e deixa de parecer algo extraordinário”.
