Consagrado no Festival do Rio 2026, onde conquistou o prestigiado Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção e diversas outras categorias, o filme A Margem do Rio chega agora à 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trazendo à tona debates urgentes sobre fundamentalismo religioso e dissidências sexuais. A produção, que levou cerca de uma década para se concretizar, marca a estreia em conjunto dos diretores Matheus Farias e Enock Carvalho em longas-metragens.
Romance e perigo nas margens do Recife
A trama tem como cenário a capital pernambucana e acompanha os passos de Izaquiel, interpretado por Caíque Copque. Ele trabalha como auxiliar de serviços gerais dentro de um templo evangélico e aproveita seus momentos longe da congregação para vivenciar sua sexualidade, marcando encontros casuais com rapazes na área do manguezal.
Em uma de suas idas à região ribeirinha, Izaquiel se envolve com Jeremias, personagem vivido por Ítalo Martins, um pescador de presença magnética. Contudo, conforme a ligação entre os dois se intensifica, o local passa a ser palco de uma onda crescente de violência direcionada aos frequentadores daquelas margens.
Memórias reais por trás da narrativa
A construção do enredo tem forte ligação com a trajetória biográfica de Matheus Farias, que vivenciou de perto a dinâmica de um templo por duas décadas:
“Eu passei 20 anos da minha vida na igreja. Não apenas participando da igreja, mas fazendo parte da liderança. Foram 20 anos de participação, mas também de trabalho”, conta.
O diretor relata o ambiente opressor vivido por fiéis que escondiam suas orientações sexuais:
“Eu já sabia que era gay. E também sabia que eu não era o único gay na igreja. Todo mundo meio que olha e sabe, mas não consegue conversar sobre isso, porque a violência é institucionalizada dentro da igreja. Existe um grau de exposição quando você é descoberto, uma humilhação muito forte, e todo mundo tinha muito medo disso acontecer. Eu tenho amigos que foram expostos dessa forma. Infelizmente, situações que não acabaram bem”, relembra o cineasta.
A pressão culminou em sua saída da comunidade:
“Ao longo do tempo, eu fui sentindo essas violências chegando cada vez mais perto de mim, até eu perceber que não cabia mais naquele lugar. E quando eu percebi que não cabia mais, foi quando eu comecei a me assumir aos poucos. E foi nesse momento que, de fato, eu fui empurrado para fora da igreja”, continua.
O controle institucional do indivíduo
Assim como aconteceu com o realizador, o protagonista da ficção também precisa lidar com as imposições da congregação. Para Farias, “A violência veio como uma forma de silenciamento para mim”.
Ele ainda analisa a contradição no discurso institucional:
“O que eu acho mais curioso é que, de um ponto de vista religioso, a igreja se vende como um lugar para pessoas doentes. É um hospital espiritual que as pessoas vão para procurar ajuda. Então, se eu sou um ‘doente’, por que não posso participar da igreja? Por que não posso procurar a minha cura? E, na verdade, o que eles querem não é necessariamente curar você
