A disparada no custo de vida nos Estados Unidos tem obrigado cidadãos comuns a adotarem estratégias extremas para conseguir pagar as contas e sustentar suas famílias diante de um cenário econômico cada vez mais desafiador.
Jornada tripla e bicos para pagar as contas
Kathryn Vaughn, de 46 anos, retornou às atividades em uma escola fundamental na zona rural do Tennessee acumulando muito mais estresse financeiro que nos períodos anteriores. Ela trabalha em três empregos diferentes, incluindo a função de professora de artes em uma escola primária, para manter sua família de quatro pessoas.
Depois do expediente na instituição de ensino, Vaughn atua como facilitadora em um programa voltado para jovens em risco, o que permite levar seu filho de cinco anos e economizar com creche. A rotina de complementação de renda ainda inclui escrever obituários, atuar como modelo de mãos para uma joalheria local, vender itens que ficam mais de 10 minutos em casa através de grupos do Facebook e revogar roupas em plataformas online como ThredUp e Poshmark.
“Já fiz coisas incrivelmente insanas para sobreviver”, ela conta.
“Fui modelo de mãos para uma joalheria local, vendo tudo o que fica por mais de 10 minutos na minha casa em sites de troca no Facebook e revendo roupas no ThredUp e no Poshmark [plataformas online].”
Impacto nos combustíveis e na compra da casa própria
O índice de inflação nos Estados Unidos superou as projeções, com alta de 3,7% nos preços acumulados em 12 meses até setembro. O encarecimento da energia, refletido em recordes históricos para o óleo diesel e na alta da gasolina, pesou diretamente no orçamento das famílias.
Para Punal Bhavsar, de 39 anos, o plano de adquirir uma residência em 2026 foi comprometido pelo avanço inflacionário. Ele aponta que o principal fator de peso no seu dia a dia é o valor cobrado pelos combustíveis.
“Dirijo um carro que usa gasolina premium”, segundo ele, “e, infelizmente, na Califórnia e na região onde moro, ela custa quase US$ 6 [por galão]”, cerca de R$ 8 por litro.
Bhavsar avalia o momento econômico como sombrio, um sentimento refletido no Índice Gallup de Confiança na Economia, que marcou -40 pontos em setembro. O percentual de americanos que enxergam uma verdadeira crise no custo de vida chegou a 95% em levantamento recente do jornal The Guardian.
Alimentação mais cara e cortes drásticos no orçamento
No Estado de Utah, Caitlin Green e seu marido viram os gastos mensais no supermercado saltarem de US$ 200 para US$ 400. Entre os itens mais afetados está a carne moída, historicamente vista como uma opção barata de refeição.
“Entendo que a inflação existe, mas acho que nunca na vida vi a inflação subir tão rápido e de forma tão drástica”, ela conta.
O produto, que antes custava cerca de US$ 4,40 por quilo, passou a ser comercializado por US$ 17,60, fazendo com que o casal migrasse frequentemente para frango ou peru moído.
A carne moída “é quase… não um luxo, como o bife… mas está a ponto de se tornar um luxo”, segundo ela. “Precisamos pensar se formos comprar.”
No Tennessee, as decisões drásticas de Vaughn incluíram pagar US$ 130 em material escolar, adotar o almoço fornecido pela escola para o filho caçula por ser financeiramente mais vantajoso e cancelar uma viagem de férias para visitar os avós na Flórida devido ao preço proibitivo da gasolina.
“Está tudo difícil”, ela conta.
“O custo de tudo está absurdo. Gasolina para ir trabalhar, meu seguro aumentou, alimentar dois filhos e um marido. É demais.”
Com as eleições de meio de mandato se aproximando nos Estados Unidos, a instabilidade econômica desponta como o principal fator de decisão nas urnas para eleitores afetados pela crise.
