Com um vigor impressionante que desafia o tempo, Jorge Ben Jor transformou o Nubank Parque, na zona oeste de São Paulo, em uma imensa pista de dança no último sábado (17 de outubro de 2026). Diante de uma multidão de 51 mil pessoas, o lendário músico carioca comandou mais de duas horas ininterruptas de puro balanço, provando sua vitalidade artística aos 87 anos de idade.
Energia contagiante e repertório consagrado
Diferente de outros veteranos da música nacional, o artista evita turnês extensas ou despedidas formais, mantendo apresentações raras ao longo do ano. Para este espetáculo de grandes proporções, batizado de “Alquimia Popular Brasileira”, a expectativa de um repertório temático focado no cultuado álbum “A Tábua de Esmeralda” (1974) deu lugar aos clássicos indispensáveis de seu cancioneiro, além do resgate pontual de “Errare Humanum Est”.
Desde os primeiros acordes, o cantor ditou um ritmo acelerado, muitas vezes surpreendendo os próprios músicos com improvisos. Em sequência vibrante, emendou sucessos atemporais como “Magnólia”, “Ive Brussel”, “Menina mulher da pele preta”, “O telefone tocou novamente”, “Oba Lá Vem Ela” e o hino “País Tropical”. O aparato visual acompanhou a grandiosidade da noite, com telões cúbicos nas laterais e uma tela circular central completando a cenografia moderna sem perder a elegância.
Lágrimas e clima político nas arquibancadas
Sempre reservado e mantendo os tradicionais óculos escuros, o sambista quebrou a habitual discrição com uma demonstração pública de sensibilidade. Ao concluir a canção “Alcohol”, adaptou o refrão habitual e cantou “gosto tanto de vocês”, caindo no choro sob aplausos calorosos do público.
A atmosfera também refletiu a proximidade da disputa eleitoral brasileira, marcada para ocorrer dali a oito dias. Durante a execução da faixa “Costa do Marfim”, o verso “pega a mulher do vinte e dois / ganha a mulher do vinte e dois” serviu de gatilho espontâneo para manifestações divididas na plateia: enquanto um setor entoava “Olê, olê, olá, Lula”, outros espectadores respondiam fazendo gestos com o número da chapa adversária.
Encontro de gerações no palco
A divergência política, no entanto, dissolveu-se rapidamente no poder agregador do ritmo do anfitrião. Para coroar o encerramento do evento, estrelas da música brasileira dividiram os microfones em uma celebração coletiva ao som de “Taj Mahal”. Nomes de peso como Baby do Brasil, Samuel Rosa, Rael, Edi Rock e Simoninha subiram ao palco para reverenciar a obra de um dos maiores patrimônios culturais do país.
