Conectados permanentemente por aplicativos de mensagens e plataformas de vídeos curtos, jovens nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010 vêm se transformando no principal motor de passeatas em vários continentes. Do Chile à Índia, passando por nações como França, Albânia e Espanha, essa parcela da população recorre ao ambiente digital para transformar descontentamentos locais em revoltas de rua de grande alcance.
Conexão digital e repercussão instantânea
A articulação rápida em canais como TikTok, Instagram, Telegram e WhatsApp atua como um acelerador das queixas públicas. Essa circulação veloz de conteúdo permite que táticas de confronto e pautas de reivindicação sejam replicadas quase em tempo real em diferentes partes do planeta.
De acordo com Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa troca constante alimenta uma forte solidariedade entre os jovens de diferentes países. “Questões orçamentárias na educação de países como França, Chile e Argentina, ou a crise da moradia na Espanha e os escândalos nos vestibulares na Índia, geram uma identificação geracional imediata”, explica Bressan.
Humor e sátira desafiam o poder na Ásia
O alcance das redes também potencializou o uso da ironia como forma de resistência. Um exemplo marcante ocorreu na Índia com o surgimento da Cockroach Janta Party (movimento das Baratas), em maio de 2026. Organizado por candidatos de concursos e estudantes revoltados com fraudes em exames de admissão e casos de corrupção, o grupo adotou fantasias e memes inspirados em ofensas dirigidas a desempregados para satirizar figuras públicas.
A pressão gerada na internet forçou a saída do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, em julho. Mais recentemente, manifestantes voltaram às ruas da capital, Nova Délhi, e de outras cidades para exigir o afastamento de Gyanesh Kumar, chefe da Comissão Eleitoral, devido à exclusão de mais de 130 milhões de eleitores do cadastro oficial — medida vista como favorável ao partido de Narendra Modi.
O poder de desestabilização da juventude conectada já havia derrubado estruturas no Nepal, em setembro de 2025. O bloqueio estatal a redes sociais levou entre 20 mil e 25 mil pessoas às ruas de Katmandu. A repressão policial resultou em ao menos 76 mortes e 2 mil feridos, segundo a Anistia Internacional, além de ataques ao Parlamento. A crise provocou a renúncia do premiê K. P. Sharma Oli e a vitória histórica do ex-prefeito Balendra Shah, do Partido Nacional Independente, nas eleições de março de 2026.
Tensões estudantis e crise de moradia na Europa
Na França, as manifestações estudantis iniciadas em 17 de setembro contra a precarização das escolas e o déficit de professores ganharam escala quando os próprios alunos passaram a expor a infraestrutura dos colégios e a repressão nas redes. O Ministério do Interior calculou mais de 160 mil manifestantes em 13 de outubro. Com mais de 6,7 mil adolescentes detidos e 36 investigações abertas contra abusos policiais, segundo o Le Monde, o anúncio de contratação de docentes substitutos não conteve os protestos.
O descontentamento juvenil na Europa também atinge outras frentes:
- Espanha: O despejo e posterior morte da idosa Maricarmen Abascal, de 87 anos, provocou grandes atos contra a crise imobiliária e a alta dos aluguéis, amplamente integrados por jovens.
- Albânia: Protestos estudantis contra a precariedade das universidades e o desemprego escalaram para confrontos violentos em Tirana e outras cidades contra o governo de Edi Rama. Os manifestantes também contestam a aprovação de um resort de luxo na costa do país capitaneado por Jared Kushner, genro de Donald Trump.
Descontentamento na América do Sul e o rompimento ideológico
No Chile, sob a administração de José Antonio Kast, a Confederação de Estudantes do Chile (Confech) reuniu mais de 20 mil manifestantes em 1º de outubro com o lema “Nem um peso a menos para a educação”, repudiando os cortes do orçamento projetado para 2027. O protesto terminou com ao menos 31 prisões, segundo o El País, e abriu caminho para novas manifestações com apoio de povos indígenas mapuches.
Para Regiane Bressan, os atos globais não obedecem a uma cartilha partidária fixa, voltando-se tanto contra lideranças de esquerda quanto de direita. “O traço comum é a rejeição à precarização e aos privilégios de castas políticas, independentemente do espectro ideológico formal do governante”, diz Bressan. Ela avalia que a aproximação de parte da juventude com símbolos anticapitalistas decorre do aperto financeiro: “Então, diante de aluguéis inacessíveis, cortes na educação e na previdência, os símbolos da esquerda radical voltam a ser adotados pela juventude como a forma mais direta de rejeitar o neoliberalismo e o mercado regulamentado”, explica.
Diferenças entre as mobilizações do passado e do presente
Embora a juventude tenha sido protagonista em períodos como o Maio de 1968 francês e a resistência à ditadura brasileira, a estrutura dos atos mudou radicalmente. O professor de ciências sociais Luciano Gomes, do Centro Universitário Arnaldo Janssen, lembra que movimentos anteriores dependiam de órgãos de classe e partidos consolidados.
“Embora esses movimentos também fossem heterogêneos, havia maior presença de estruturas organizativas tradicionais e de projetos políticos explicitamente identificados com determinadas correntes, como o socialismo, o comunismo, o liberalismo e outras formas de pensamento político”, afirma Gomes.
O docente ressalta que o fluxo informativo era outro: “Nas gerações anteriores, a circulação das informações dependia mais da imprensa, dos panfletos, das reuniões presenciais e das redes de militância”, afirma o especialista. Hoje, a instantaneidade facilita o engajamento internacional, mas traz vulnerabilidades. “A internet facilita a mobilização, mas também favorece a circulação de desinformação, a polarização e a disseminação de conteúdos que podem estimular confrontos”, ressalva Gomes, apontando a dificuldade desses movimentos em estabelecer lideranças formais e projetos duradouros.
